A evolução dos humanos fez-se ao longo de um processo de selecção natural que privilegiou os que tiveram maior capacidade de adaptação. Estas adaptações fizeram-se à custa de mutações, duplicação de genes e recombinações genéticas que trouxeram vantagens evolutivas e foram transmitidas às gerações seguintes através da herança genética.
Vem isto a propósito da presente pandemia de obesidade que poderia ser o resultado de maladaptação nos tempos modernos a adaptações vantajosas num passado remoto.
É reconhecido que a obesidade resulta de complexas interações entre genes e ambiente e que a mudança de comportamentos e estilos de vida é a causa próxima da presente pandemia. Mas é fundamental integrar nesta equação a história recente das migrações humanas e a evidência de que a suscetibilidade individual à obesidade continua a ser maioritariamente determinada pelo nosso passado evolucionário.
Entre as várias hipóteses desenvolvidas para explicar a obesidade, duas merecem referência particular: a hipótese do genótipo poupador de energia (thrifty genotype), e a hipótese do genótipo termogénico.
Os defensores da hipótese do “genótipo poupador” argumentam que a obesidade nos países desenvolvidos resulta da pressão exercida pelas fomes cíclicas sobre os nossos antepassados. A resposta foi a seleção de genes que favoreceram o armazenamento de energia sob a forma de gordura e aumentaram a eficiência energética diminuindo o seu consumo. A seleção destes genes, adaptados à carência alimentar, mas não à abundância e ao sedentarismo, estaria na origem da pandemia de obesidade do nosso tempo.
Esta hipótese tem sido contestada porque não teve em conta as grandes migrações do passado, nem as adaptações que os humanos fizeram para sobreviver a climas extremos, quentes ou frios. Talvez por isso, não consiga explicar as diferenças étnicas verificadas na susceptibilidade à obesidade (os negros, os hispânicos e os indivíduos com ancestralidade nativo-americana têm maior propensão para a obesidade); e a influência das geografias (a resistência à obesidade dos indivíduos provenientes do leste da China, Japão e Coreia quando migraram para as sociedades industriais).
A hipótese do genótipo termogénico propõe que a adaptação dos nossos ancestrais ao calor e ao frio foi determinante da aquisição de características genéticas diferentes que nos tornaram sensíveis ou resistentes à obesidade.
Os humanos que inicialmente saíram de África em direção à Europa, há 70 mil anos, estavam bem-adaptados ao clima quente das savanas africanas. Tinham adquirido características físicas que facilitavam a dissipação do calor, mas também produziam menos calor porque possuíam genes termorreguladores que mantinham o metabolismo basal baixo à custa de menor consumo de calorias e menor produção de calor. Os que permaneceram em África ou migraram para outros ambientes tropicais retiveram estes genes de adaptação ao calor.
Os que entraram na Europa, há 48 mil anos, durante um interlúdio interglacial quente, mantiveram estes genes. Porém, 10 mil anos mais tarde as temperaturas começaram a bdescer e os glaciares a avançar, expondo-os a condições climáticas extremas. A adaptação ao frio foi uma necessidade conseguida através da seleção de genes que passaram a regular a produção e libertação de calor nas mitocôndrias do tecido adiposo castanho. Em consequência, os indivíduos com este genótipo têm metabolismo basal e temperatura cutânea mais elevados, à custa do aumento do consumo de ácidos gordos livres. Esta habilidade para produzir calor foi vital para a sobrevivência dos recém-nascidos e permitiu que os humanos colonizassem regiões tão frias como a Sibéria, o nordeste da Ásia e a Europa.
Esta adaptação genética ao frio explica por que razões os caucasianos europeus e os chineses são mais resistentes à obesidade do que outras populações, designadamente os afro-americanos e os hispânicos; ou porque as taxas de obesidade são mais elevadas nos estados norte-americanos mais quentes, e mais baixas nos estados mais frios.
Todavia, no caso do continente americano, deverá ser tido em conta que as populações americanas contemporâneas já não refletem a grande marcha humana do passado.
Entre 1492 – data da descoberta da América por Cristóvão Colombo – e 1820, 2.6 milhões de europeus emigraram para o continente americano, mas o grande fluxo migratório a partir da Europa ocorreu entre 1815 e 1930. Neste período, 60 milhões de europeus emigraram, dos quais 71% para a América do Norte, 21% para a América Latina e 7% para a Austrália.
Acresce que as populações nativas do continente americano, descendentes dos humanos que atravessaram o estreito de Bering há 20 mil anos, foram devastadas pelas expedições europeias e pelas doenças trazidas pelos colonizadores europeus e pelos escravos provenientes da África Ocidental. O tráfico de escravos transatlântico, que substitui populações nativas em muitas regiões e geografias, trouxe para o continente americano mais de 12.5 milhões de africanos entre 1514 e 1866.
A resistência ou susceptibilidade à obesidade, assim como a explosão epidémica da prevalência nas últimas décadas, não podem ser explicadas simplisticamente pela complexa interação genes-ambiente ou por uma teoria única. Ela também tem de ser avaliada à luz do nosso passado evolucionário; das diferentes pressões evolutivas a que fomos sujeitos nas diferentes partes do mundo; das adaptações genéticas que fizemos ao frio, ao calor e às fomes cíclicas; da constituição do “melting pot” cultural e genético nalgumas geografias, fruto de migrações, substituições populacionais, do tráfico árabo-muçulmano a partir do século VII, do tráfico transatlântico e as migrações do século XX; e, mais recentemente, do sedentarismo, da redução da exposição ao frio, e da aquisição de novos hábitos e comportamentos alimentares que denunciam o ambiente obesogénico das sociedades modernas.
Um estudo que incluiu dados de 195 países mostrou que a prevalência da obesidade mais do que duplicou entre 1980 e 2015, atingindo 5% das crianças e 12% dos adultos. Mais de dois terços das mortes relacionadas com o aumento do índice de massa corporal foram devidas a doenças cardiovasculares.
Em Portugal, de acordo com os dados de 2024 da European Food Information Council, 22% dos homens e 23% das mulheres eram obesos, e 40% dos homens e 28% das mulheres tinham excesso de peso.
A obesidade é uma doença crónica, caracterizada por um estado inflamatório, persistente, de baixo grau, de dimensão sistémica. Ao longo da progressão da doença, após um período subclínico, a obesidade vai adquirindo expressão clínica na dependência das lesões e disfunções dos vários orgãos e sistemas atingidos.
A obesidade é uma verdadeira plataforma giratória (Hub) de interligação de doenças e disfunções de orgãos e sistemas relacionados entre si por mecanismos patogénicos que têm em comum a inflamação sistémica e o aumento do stress oxidante.

São exemplos destas complexas interligações o desenvolvimento da aterosclerose e o lugar central da inflamação na patogenia da disfunção endotelial; a ligação entre a insulinoresistência, a activação do NF-kB e o risco de cancro; a importância da activação do NF-kB na patogenia da insuficiência cardíaca e das doenças que causam insuficiência cardíaca, como hipertensão, enfarte do miocárdio e miocardites virais; a estreita relação da obesidade com a insuficiência cardíaca com fracção de ejecção preservada (ICFEP); a activação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) e do sistema nervoso simpático sistémico e renal e o desenvolvimento de hipertensão no obeso; a inter-relação entre obesidade, insulinoresistência, imunosenescência e o aumento da susceptibilidade às infecções virais; o círculo vicioso da resistência à insulina, a hiperinsulinémia e a progressão da obesidade; a esteato hepatite não alcoólica (NAFLD); a relação de certas doenças autoimunes com a obesidade e a inflamação; a associação do gene FTO (fat mass and obesity-associated gene), e o excesso de peso/obesidade com o aumento do risco de cancro; outras mais.
À medida que estas disfunções se combinam e agravam, num efeito amplificador, criam-se condições para a tempestade perfeita da obesidade.

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