A enxaqueca é uma doença neurológica com um impacto significativo, apresentando uma prevalência superior à da diabetes e da asma combinadas. Estima-se que afete cerca de 2 milhões de portugueses de todas as idades, sendo mais frequente nas mulheres. Segundo o Global Burden of Disease, é uma das doenças que mais causa anos vividos com incapacidade na população ativa.
Altamente incapacitante, a enxaqueca é uma das principais causas de absentismo laboral e diminuição da produtividade. Para além do impacto individual, tem, também, repercussões familiares e sociais, pelas limitações que impõe às relações pessoais.
A classificação das enxaquecas (Documento de Consenso da European Headache Federation and the European Academy of Neurology) baseia-se na presença ou ausência de aura (enxaqueca com ou sem aura) e na frequência dos ataques (enxaqueca episódica ou crónica).
A enxaqueca é habitualmente episódica. Porém, numa minoria de doentes, os ataques têm uma frequência muito elevada – ataques em 15 ou mais dias do mês durante, pelo menos, 3 meses – sendo a enxaqueca classificada como crónica.
A aura, que é um conjunto de sintomas neurológicos focais que precedem ou acompanham os ataques de cefaleias, está presente em cerca de 1/3 dos casos de enxaqueca.
A doença manifesta-se por episódios de cefaleia moderada a grave, habitualmente unilateral (bilateral em 40% dos casos), pulsátil e agravada pela atividade física, frequentemente acompanhada de sintomas neurológicos e autonómicos como fotofobia, fonofobia, náuseas e vómitos.

Na avaliação dos doentes com cefaleias, há um conjunto de factores que, se presentes, levantam a suspeita de enxaqueca:

O tratamento da enxaqueca assenta em duas abordagens complementares, o tratamento da crise e o tratamento preventivo.
Tratamento da crise
Deve ser iniciado o mais precocemente possível, logo aos primeiros sinais de dor, para maximizar a sua eficácia. No entanto, a frequência da medicação deve ser controlada para evitar o risco de cefaleia por uso excessivo de medicação. Nesse sentido, a utilização de triptanos ou de combinações de analgésicos não deve exceder os 10 dias por mês, enquanto a de AINEs ou paracetamol deve ser limitada a menos de 15 dias mensais.
Tratamento preventivo
O tratamento preventivo está indicado quando a frequência das crises é elevada ou quando estas afetam significativamente a qualidade de vida e a funcionalidade do doente.
Outras situações que justificam esta abordagem incluem a resposta inadequada ao tratamento agudo, a presença de aura prolongada ou de complicações neurológicas, como na enxaqueca basilar ou na aura hemiplégica, e o uso excessivo de medicação aguda, que pode desencadear cefaleia por uso excessivo de fármacos (medication overuse headache).
A seleção do tratamento preventivo deve ter em conta a evidência de eficácia, a tolerabilidade, o perfil de efeitos secundários e as contraindicações específicas de cada fármaco.
Nos últimos anos, têm surgido novas opções terapêuticas com mecanismos de ação específicos na fisiopatologia da enxaqueca, como os anticorpos monoclonais anti-CGRP. Apesar da sua eficácia, o acesso a estas terapias continua limitado, devido ao seu elevado custo, à administração injetável e à dispensa hospitalar obrigatória.
Como alternativa, os gepants, antagonistas orais do recetor CGRP, oferecem uma solução mais prática e acessível. O atogepant, por exemplo, é administrado por via oral, em toma única diária, demonstrando eficácia na prevenção da enxaqueca e um bom perfil de segurança, incluindo em doentes com risco cardiovascular. Estas características tornam os gepants uma opção especialmente útil para doentes que necessitam de tratamento profilático, melhorando a abordagem à enxaqueca em várias situações clínicas.
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